


Você tropeçou, caiu apoiando a mão no chão e sentiu uma dor no punho. Passaram-se os dias, o inchaço diminuiu, e você pensou: “foi só uma batida”. Esse é exatamente o roteiro mais comum da fratura do escafoide, uma lesão pequena, mas que merece atenção, porque, quando não é tratada a tempo, pode deixar sequelas no punho.
Neste artigo, explico o que é o escafoide, como reconhecer a fratura, por que ela é tão facilmente esquecida, quais são as opções de tratamento (conservador ou cirurgia) e o que esperar da recuperação.
O escafoide é um pequeno osso do punho, localizado na base do polegar. Ele funciona como uma “ponte” entre as duas fileiras de ossos do punho e participa de praticamente todos os movimentos da mão.
É o osso do punho que mais fratura. Em geral, a lesão acontece em adultos jovens, depois de queda da própria altura com a mão espalmada (reação instintiva para amortecer o impacto), acidentes de bicicleta, moto ou patinete, e esportes como futebol, vôlei, basquete e artes marciais.

A resposta está na circulação sanguínea. Boa parte do sangue que chega ao escafoide entra pela região mais distante do polegar e segue de forma retrógrada dentro do osso. Por isso, quando a fratura acontece, o fragmento mais próximo do antebraço (o chamado polo proximal) pode ficar com pouco suprimento de sangue.

Na prática, isso significa que:
Quanto mais perto do antebraço for a fratura, maior é esse risco.
Os sinais podem ser discretos, e é aí que mora o perigo:
Muitas vezes não há deformidade nem hematoma, e a pessoa consegue continuar usando a mão. Isso faz com que a lesão seja confundida com uma entorse.
Porque o raio-X inicial nem sempre mostra a fratura. Em alguns casos, a linha de fratura é muito fina e só se torna visível alguns dias depois. Estudos indicam que o raio-X simples pode deixar de identificar uma parcela das fraturas recentes, e que a ressonância magnética encontra fratura em cerca de 1 a cada 8 pacientes com raio-X inicial normal.
Por isso, quando há dor persistente após uma queda e o raio-X veio normal, o especialista em mão pode:
O diagnóstico combina:

A escolha depende principalmente do local da fratura, do desvio entre os fragmentos, do tempo desde a lesão e da rotina do paciente.
Fraturas sem desvio, especialmente na região média do osso (“cintura”) e distal (mais próxima da base do polegar), costumam consolidar com imobilização por cerca de 6 a 12 semanas, com maiores taxas de consolidação do que o polo proximal. Durante esse período, o acompanhamento com raio-X (e, às vezes, tomografia) é fundamental para confirmar que o osso está cicatrizando.
Pontos de atenção da imobilização:
A cirurgia costuma ser indicada em fraturas desviadas, instáveis, localizadas na porção mais próxima do antebraço (polo proximal) e nos casos em que o osso não consolidou com o tratamento inicial. Também pode ser uma opção em fraturas sem desvio quando o paciente precisa voltar mais rápido ao trabalho ou ao esporte.
Em geral, o osso é estabilizado com parafuso de compressão sem cabeça, colocado por uma pequena incisão (atrás do punho) ou de forma percutânea (na frente do punho), sendo a via definida conforme a localização e o padrão da fratura. Quando há pseudoartrose estabelecida, a cirurgia pode incluir enxerto ósseo, a critério do cirurgião.

Revisões científicas mostram que, em fraturas sem desvio na região média do osso, a fixação com parafuso tende a levar a uma consolidação mais rápida e a um retorno mais precoce ao trabalho manual do que o gesso. A decisão deve ser individualizada, após conversar com um cirurgião de mão.
Uma fratura que não cicatriza (pseudoartrose) ou que perde circulação pode evoluir para:
Por isso, o diagnóstico precoce e o seguimento correto fazem toda a diferença. A boa notícia é que, quando tratada no tempo certo, a grande maioria das fraturas do escafoide evolui bem.
Procure avaliação se, depois de uma queda ou pancada no punho:
Se você já recebeu o diagnóstico e quer entender se o melhor caminho é o gesso ou a cirurgia, uma avaliação com especialista em mão e punho ajuda a definir a conduta.
Quanto tempo leva para consolidar uma fratura do escafoide?
Em fraturas sem desvio na região média e distal do osso, em geral de 6 a 12 semanas.
A fratura do escafoide sempre precisa de cirurgia?
Não. Fraturas sem desvio e sem critérios de instabilidade podem ser tratadas com imobilização. A cirurgia é indicada em fraturas desviadas, instáveis, localizadas na parte mais próxima do antebraço, em pseudoartrose ou quando o paciente precisa de recuperação mais rápida.
É possível ter fratura do escafoide com raio-X normal?
Sim. A fratura pode não aparecer no primeiro exame. Se a dor persistir, a ressonância magnética ou a tomografia ajudam a esclarecer.
Posso continuar usando a mão se suspeito de fratura do escafoide?
O ideal é evitar apoiar peso ou fazer esforço e procurar avaliação com um cirurgião de mão. Continuar usando a mão normalmente pode atrapalhar a cicatrização.
O que é pseudoartrose do escafoide?
É quando o osso não consegue consolidar. Pode causar dor, perda de força e, com o tempo, artrose do punho. Necessita de tratamento cirúrgico.
Em quanto tempo posso voltar ao esporte ou ao trabalho?
Depende do tipo de fratura e do tratamento. A liberação acontece quando o exame de imagem confirma a consolidação, e o cirurgião de mão orienta cada caso.
A fratura do escafoide é uma lesão frequente, silenciosa e, por isso, muitas vezes subestimada. Dor persistente no punho depois de uma queda nunca deve ser tratada como “só uma batida”. Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, seja com imobilização ou cirurgia, a grande maioria dos pacientes retoma suas atividades com bom resultado.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica. Somente um médico pode diagnosticar e indicar o tratamento adequado.
Dr. Guilherme Meneghel
Médico Ortopedista e Traumatologista | Especialista em Cirurgia da Mão e Microcirurgia
CRM-SP: 183.821 | RQE Ortopedia: 91013 | RQE Cirurgia da Mão: 111694
Graduação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) | Especialização pelo Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP)
Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM)
Consultório: Rua Harmonia, 1323 – Vila Madalena, São Paulo – SP
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