

Dias atrás atendi uma senhora que se queixava de que o dedo "travava" quando pegava algo e que, ao soltá-lo, sentia um “cloc" em seu dedo, que muitas vezes doía por dias a fio. Marcou-me, o exemplo dado por ela, que trago a seguir:
“Dr., sempre que carrego meu neto no colo, sinto que meu dedo vai travar e doer muito depois. Como posso fazer para carregá-lo sem ter dor?”
Compreendendo seu problema, examinei-a e fiz minha hipótese dagnóstica:

O dedo em gatilho, ou tenossinovite estenosante, é identificado clinicamente pelo seu "travamento” dobrá-lo seguido, em alguns casos, por uma sensação de “estalo" e ressalto do dedo ao esticá-lo.
Os dedos fletem(dobram) pela ação dos tendões flexores. Os tendões flexores ficam contidos dentro de túneis em nossos dedos, que são delimitados em parte por polias, que são uma espécie de "fitas".
O dedo em gatilho ocorre pelo espessamento dessas polias, sobretudo da que fica na base do dedo, conhecida como polia A1.
Tal espessamento, causa o atrito dos tendões flexores com a polia, levando aos sintomas.
Epidemiologicamente, o dedo em gatilho é mais comum em mulheres na faixa dos 50 a 60 anos.
Pode acometer todos os dedos da mão. Tem associação com doenças como: diabetes, gota, doença renal crônica e doenças reumatológicas. Apesar dessas associações, pode aparecer isoladamente.
Orienta-se que o tratamento seja feito preferencialmente com o médico especialista em cirurgia da mão. Dado a experiência, vivência e tempo do especialista em cirurgia da mão envolvido no tratamento do dedo em gatilho, recomenda-se que se busque este profissional.
Existem opções de tratamento para o dedo em gatilho, como órteses, infiltrações e cirurgia. De uma forma geral, dividimos entre tratamento cirúrgico e não cirúrgico.
Isso irá depender da modalidade de tratamento (cirúrgica ou não cirúrgica), do estágio e das comorbidades do paciente.
Quando optado pelo tratamento do dedo em gatilho, sem cirurgia, iniciaremos com uso de medicações via oral, infiltrações e, em casos selecionados, imobilizações.
É feita no consultório mesmo, sem necessidade de internação. Fazemos uma antissepsia e assepsia da mão, anestesiamos com uma agulha bem fina o ponto de entrada da solução, para que o paciente não tenha dor, e aplicamos ela. A solução consiste na mistura de anestésico com corticóide de longa duração. Importante ressaltar que no dia da infiltração o paciente deve repousar e, no dia seguinte, pode retornar às suas atividades.
Há diferentes respostas à infiltração do dedo em gatilho. Há pessoas que tem o alívio e resolução duradoura do dedo em gatilho, outros que tem uma melhora da dor e retorno a curto/médio prazo dos sintomas e outras que pouco respondem ä infiltração do dedo em gatilho. Sabe-se que, em alguns perfis, como em diabéticos, por exemplo, a taxa resposta à infiltração é menor em comparação à população sem comorbidades que tem dedo em gatilho.
A cirurgia do dedo em gatilho é um procedimento de pequeno porte, com o paciente internando e tendo alta no mesmo, na grande maioria dos casos. A incisão visa dar uma boa visão da polia acometida e permitir isolar os feixes que nutrem e dão sensibilidade ao dedo. Após ter a segurança dos feixes, fazemos a liberação dessa polia, para que o tendão excursione adequadamente.
Ensina-se medidas para gerar menos edema, dor e mais mobilidade ao paciente. Como elevar o membro, tomar as medicações conforme prescritas e movimentar os dedos de forma assistida.
Os pontos são retirados quando se atinge a cicatrização adequada da pele ( em torno de 2-3 semanas).
Cada paciente tem sua profissão ou atividade com determinada demanda sobre seus movimentos e força, logo, em cada caso se planeja um retorno seguro. Ademais, em um perfil que não demande força ou uso excessivo da mão operada, estimamos que retorne ao seu trabalho com 1 mês pós-operatório.
Dr. Guilherme Meneghel
Ortopedia | Cirurgia da mão e punho
CRM: 183.821 | RQE: 91013/ 111694