Acordar com a sensação de dedos “travados”, sentir pontadas ao abrir um pote de palmito ou notar que as juntas dos dedos estão engrossando com o passar dos anos são queixas muito frequentes no consultório.
Se você se identifica com esse cenário, é provável que esteja enfrentando um quadro de artrose nos dedos (também conhecida pelos médicos como osteoartrose ou osteoartrite). Na verdade, as pequenas juntas das mãos são a região do corpo mais afetada pela artrose e uma das principais razões para consultas com cirurgiões de mão.
Neste artigo, explicamos de forma simples o que acontece por dentro da sua articulação, por que essas dores surgem e quais são as soluções atuais para recuperar o conforto das suas mãos.
O que é a artrose nos dedos?
Imagine que as articulações dos dedos funcionam como pequenas dobradiças protegidas por uma camada lisa e escorregadia chamada cartilagem. É ela que permite que os ossos deslizem perfeitamente, sem atrito.
Com a artrose, essa camada de cartilagem vai se desgastando e afinando com o passar dos anos. Sem essa proteção, os ossos começam a raspar diretamente um contra o outro. O corpo tenta se defender criando pontas ou calos de osso extra (chamados de osteófitos ou “bicos de papagaio”), o que gera inchaço, rigidez e dor.
Nas mãos, a artrose costuma atingir pontos bem específicos:
A pontinha do dedo (perto da unha): aqui surgem os nódulos de Heberden (carocinhos duros). Também é comum aparecerem pequenas bolhas com líquido transparente gelatinoso na base da unha, chamadas de cistos mucosos.
A junta do meio do dedo: quando engrossa com calos ósseos, forma os chamados nódulos de Bouchard.
A base do polegar: uma junta fundamental para segurar objetos em pinça; quando sofre desgaste, recebe o nome de rizartrose (muito comum e com opções específicas de cuidado).
A base dos dedos (palma da mão): pode sofrer desalinhamento e rigidez em fases mais avançadas.
Quais são os principais sintomas?
Os sinais podem começar de forma sutil e oscilar com períodos de melhora e piora:
Dor que piora com o esforço: a mão dói mais ao torcer um pano, carregar sacolas pesadas, girar uma chave ou tricotar, aliviando no descanso.
Dedos duros ao acordar: aquela sensação de junta “enferrujada” pela manhã, que costuma melhorar após movimentar a mão por alguns minutos.
Nódulos e dedos com aspecto engrossado: as articulações ganham volume e ficam endurecidas ao toque.
Fraqueza para segurar objetos: dificuldade para fechar o punho com força, descascar alimentos ou abotoar uma camisa.
Estalos e sensação de areia: um atrito áspero que pode ser sentido ou ouvido ao dobrar os dedos.
Você sabia? Existe uma artrose mais inflamatória:
Há uma forma chamada osteoartrite erosiva, mais comum em mulheres, que começa de repente com inchaço e dor intensa, atingindo principalmente o polegar e o dedo indicador. Por ser muito dolorosa, ela costuma ser confundida com artrite reumatoide e exige avaliação atenta do especialista.
Por que a artrose dos dedos acontece?
O desgaste articular é o resultado de vários fatores ao longo da vida:
Idade: o tempo de uso das mãos acumula microimpactos; a condição se torna muito comum a partir dos 50 anos e está presente na maioria das pessoas acima dos 75 a 80 anos.
Sexo e hormônios: as mulheres são muito mais propensas a desenvolver artrose nas mãos do que os homens, especialmente após a menopausa.
Genética: se sua mãe, pai ou avós tinham dedos tortuosos ou nódulos nas mãos, sua chance de apresentar o quadro é maior.
Esforço e repetição: atividades manuais pesadas e contínuas por muitos anos aceleram o atrito das articulações.
Traumas antigos: quebrar um dedo no passado ou romper um ligamento acelera o desgaste futuro daquela junta (artrose pós-traumática).
Mito do “lado que mais uso”: estudos médicos comprovam que ser destro ou canhoto não define onde a artrose vai aparecer; a condição costuma se manifestar nas duas mãos de forma parecida.
Como o Especialista descobre a artrose?
O diagnóstico é feito no próprio consultório médico. O especialista conversa com o paciente, palpa com cuidado cada junta para avaliar pontos de dor e analisa a força e o alinhamento dos dedos.
Radiografia (Raio-X): é o exame de rotina mais importante. Ele mostra se o espaço entre os ossos diminuiu (sinal de que a cartilagem sumiu) e se há formação de bicos de osso.
Ressonância Magnética: raramente é necessária, sendo reservada para quando há suspeita de inflamações nos tendões ou para descartar outras doenças das articulações.
Como tratar a artrose nos dedos?
A cartilagem perdida não volta a crescer, mas é perfeitamente possível controlar a dor, evitar a piora do quadro e recuperar a capacidade de usar as mãos sem sofrimento.
1. Tratamentos Sem Cirurgia (Conservadores)
São sempre a primeira escolha para a maioria dos pacientes:
Talas e órteses sob medida: pequenos apoios leves que sustentam e descansam a junta mais dolorida em momentos de esforço.
Terapia da mão (Fisioterapia especializada): exercícios suaves que ajudam a manter a mobilidade dos dedos e a força sem agredir as articulações.
Medicamentos: remédios analgésicos e anti-inflamatórios receitados pelo médico para acalmar as crises de dor mais intensas.
Infiltrações na articulação: aplicações direcionadas de medicação dentro da junta para aliviar quadros agudos que não respondem aos remédios orais.
2. Tratamento Cirúrgico
A cirurgia é reservada para situações em que a dor é contínua e atrapalha as tarefas básicas do dia a dia, mesmo após as tentativas de tratamento com talas e terapia. Existem dois procedimentos principais:
Artrodese (Fusão da Articulação): é a união definitiva dos dois ossinhos da junta desgastada. Essa articulação para de dobrar, mas a dor do atrito simplesmente desaparece. É a solução de escolha e de altíssimo sucesso para a pontinha do dedo (perto da unha), onde a perda de movimento não atrapalha em nada a função da mão.
Artroplastia (Prótese Articular): substituição da articulação desgastada por um implante (prótese). É considerada com frequência na junta do meio do dedo, onde preservar o movimento de dobrar e esticar é muito importante para segurar objetos.
Dr. Guilherme Meneghel
Médico Ortopedista e Traumatologista | Especialista em Cirurgia da Mão e Microcirurgia